GLOSSÁRIO

glossaryAlimentação temática
Num processo de produção textual, a alimentação temática corresponde aos procedimentos propostos por um docente, um material didático ou uma SD, para permitir ao aluno a construção de um repertório pertinente para a tarefa. Assim, se o que estiver em jogo for a produção de um artigo de opinião sobre cotas para minorias sociais na universidade, ler textos a respeito, assistir documentários e programas de entrevistas, organizar debates com especialistas etc. são estratégias de alimentação temática.

Ancoragem
Todo discurso se tece entre dois planos distintos, indissoluvelmente articulados entre si. O primeiro deles está diretamente subordinado à situação de comunicação e ao contexto histórico-social: é o plano da enunciação, ou seja, o plano tanto da interlocução entre o enunciador e o enunciatário quanto do cenário (tempo e espaço) em que se situam. O segundo, é o plano do enunciado, e diz respeito àquilo de que o discurso fala, ao mundo a que ele se refere. A ancoragem é, então, a forma particular pela qual o discurso se relaciona simultaneamente com esses dois planos enunciativos. Nos discursos mais ancorados no contexto, como o bate-papo, predomina o plano da enunciação: tudo orbita em torno do “eu—você—aqui—agora”. Naqueles em que se manifesta um maior grau de autonomia em relação ao contexto, como o discurso teórico escrito, é o plano do enunciado que prepondera. O cenário e os protagonistas do discurso saem de cena, para dar lugar a “ele—lá—naquele momento”. Assim, todo discurso “lança sua âncora” num ponto qualquer do contínuo que se estabelece entre esses dois extremos.

 

Argumentação
1. É a ação verbal por meio da qual um enunciador — individual ou coletivo — pretende levar um destinatário determinado e/ou todo um auditório a aceitar uma determinada tese, valendo-se, para tanto, de recursos que visam estabelecer a verdade, a validade, a consistência e/ou a simples verossimilhança dessa tese (Cf. as oficinas 1 e 2 do Caderno Pontos de vista.). 2. Num sentido mais amplo, o termo argumentação designa a dimensão persuasiva da linguagem, presente em maior ou menor grau em todo discurso.

 

Assunto
Todo texto apresenta, além de um tema ou conteúdo temático — associado ao gênero em questão — um assunto determinado, ou seja, o tópico específico de que ele trata. Diários, por exemplo, têm como tema o cotidiano de seu enunciador; entretanto, a cada dia o assunto registrado será único, ainda que possa organizar-se em subtemas como “meus relacionamentos amorosos”, “minhas leituras”, “meu trabalho” etc. A distinção entre assunto, subtema e tema não é, portanto, absoluta, e sim relativa. Outro exemplo para entender a distinção entre assunto e tema seria considerar que um artigo de opinião pode tratar do tema “cotas para a educação” e recortar, nesse tema, o assunto “definição de critérios para estudantes receberem cotas ou não” ou então outro assunto, tal como “as consequências sociais da atribuição de cotas para a educação no Brasil” etc.

 

Atividades ou ações (próprias de uma esfera)
ações que são tipicamente executadas em uma determinada esfera; por exemplo, assistir aulas, na esfera escolar; batizar uma criança, na esfera religiosa; ler, escrever ou ouvir notícias, na esfera jornalística etc.

 

Autor
Apesar de parecer óbvia e evidente, a noção de autor é bastante muito discutida em vários campos das ciências humanas, disso resultando concepções bastante diferentes e até mesmo contraditórias entre si. No contexto deste curso, vamos entender o autor como aquele a quem se atribui a responsabilidade por um texto ou por toda uma obra. Em consequência, o autor é, também, aquele que é reconhecido como “dono” de seu texto, tendo, portanto, direitos sobre ele. Nesta concepção, o autor é uma criação da escrita, não havendo, propriamente falando, autoria oral.

 

Avaliação formativa
Forma de avaliar que procura evidenciar a evolução do desempenho do aprendiz. Este tipo de avaliação é realizado para acompanhar o processo de aprendizado, em seus aspectos cognitivos, afetivos e relacionais, fundamentando-se nos conhecimentos que o aprendiz pôde construir.

 

Co-texto
Tudo o que foi enunciado imediatamente antes, ou será enunciado depois, ou simultaneamente do texto em questão. Por exemplo, em uma aula, o que se disse na semana anterior compõe o seu co-texto; em uma reportagem, as legendas das fotos que a acompanham fazem parte do co-texto da reportagem (assim como as demais notícias, propagandas etc. da mesma página de jornal). O co-texto pode produzir alterações no efeito de sentido do próprio texto. Considerando-se a natureza dialógica da linguagem, todo enunciado, ou todo texto, se delimita, na cadeia do discurso, por outro(s) enunciado(s). Tendo-se identificado um texto, numa cadeia discursiva, o co-texto se constitui pelos que vêm imediatamente antes ou depois dele.

 

Coerência textual
Esta é a expressão por meio da qual designa-se o fato de que todo texto, oral ou escrito, que responda adequadamente a uma demanda de comunicação, é percebido como um todo, como uma unidade de forma e de sentido. Em consequência, nenhum de seus componentes é interpretável isoladamente, ao mesmo tempo em que cada um deles tem uma contribuição individual para a organização e o sentido do conjunto. Cf. coesão textual.

 

Coesão textual
Inseparável da coerência textual, a coesão pode ser entendida como o conjunto de procedimentos que, articulando as diferentes partes de um texto, colabora para conferir-lhe unidade de forma e sentido. Recursos como repetições, anáfora, catáfora, substituições lexicais etc. destinam-se, exatamente, a garantir essa propriedade a um texto, estabelecendo “o fio da meada”. Em consequência, a coesão textual é decisiva para a progressão temática.

 

Condições de produção
Este conceito reúne um “feixe” de aspectos ou dimensões que representam o conjunto das circunstâncias históricas e sociais em que um discurso se dá que determina tanto a sua organização particular quanto os efeitos de sentido que ele é capaz de produzir. A esfera de atividade, a situação de comunicação, os papéis sociais desempenhados pelos interlocutores, os gêneros, as demandas de comunicação, os objetivos do texto etc. fazem parte dessas condições. Por exemplo, a pessoa que reza o Pai Nosso, como agradecimento por uma graça alcançada, se insere numa situação típica de uma esfera religiosa (a ação de graças), onde desempenha um papel (de fiel agraciado) e se manifesta por meio de um gênero apropriado (a oração).

 

Conhecimentos linguísticos
No contexto da análise e da reflexão sobre a língua e a linguagem, os conhecimentos linguísticos são os saberes especializados que esse tipo de investigação produz. Uma das funções mais importantes de uma metalinguagem é exatamente a de nomear e definir com precisão os diferentes conceitos e noções que constituem esses conhecimentos, que envolvem saberes de diferentes tipos, por exemplo: saber nomear e distinguir diferentes gêneros do discurso; ser capaz de falar sobre o plano global ou características do estilo de um gênero, reconhecer que o uso de determinados registros de linguagem, ou de tempos verbais no passado ou de uma pontuação específica altera o sentido do texto. Como se vê, tais conhecimentos podem ser de natureza lingüística (o que supõe também a gramática da língua), textual e discursiva.

 

Conteúdo temático
– Na teoria do gênero de Bakhtin, a expressão conteúdo temático — ou simplesmente tema — refere-se a uma das três dimensões básicas de um enunciado concreto e, portanto, de um gênero. Nessa concepção, o tema é, também, o tipo de conteúdo próprio de um gênero, como o cotidiano do autor, em um diário, a preparação de um prato, numa receita, ou a composição, o modo de usar e as precauções correspondentes, numa bula de remédio.

 

Contextualização
– No âmbito de uma SD, a contextualização corresponde à explicitação, para os participantes, do que é a SD, de seus conteúdos e objetivos, das condições em que será realizada etc. A construção conjunta de um contrato didático é, portanto, parte da contextualização.

 

Convenções (da escrita)
Como “versão gráfica” da língua, a escrita se vale de recursos expressivos que retomam e/ou traduzem seus correspondentes orais — como ritmo, pausa, entonação, timbre, organização da fala etc. — por meio de formas próprias: pontuação, maiúsculas/minúsculas, paragrafação, parênteses etc. Esses recursos são, frequentemente, nomeados pela literatura especializada como convenções da escrita. Na medida em que remetem à oralidade sem, no entanto, dublá-la integralmente, essas convenções criam formas de organização do texto e efeitos de sentido próprios da escrita.

 

Crítica
Aparentada à resenha, a crítica é um gênero cuja finalidade é a análise de um produto cultural. Difere da resenha pelo papel social tanto do enunciador (jornalista e/ou intelectual, de um lado; pesquisador, de outro) quanto do enunciatário (leitor de jornais e público universitário, respectivamente).

 

Cultura
1. Em oposição a natureza, entende-se por cultura tudo aquilo — material ou imaterial — que, não sendo dado pela própria natureza, é produto do trabalho e do engenho humanos, pressupondo, portanto, nossa capacidade de simbolização. Nesse sentido, a cultura pressupõe a(s) linguagem(ns); e é a materialização das potencialidades humanas, ao mesmo tempo em que é o seu limite. 2. Uma das esferas da atividade humana, aquela que congrega a produção e o consumo dos chamados bens imateriais. Nesse sentido, a cultura envolve profissões, ofícios e ocupações (escritor, escultor, ator…), assim como instituições sociais próprias (literatura, artes plásticas, artes cênicas etc.)

 

Demandas (de uma esfera de atividade)
Toda esfera de atividade humana cria necessidades de comunicação próprias das situações e dos papéis sociais característicos dessa esfera. Numa esfera como a educacional, por exemplo, participar de uma situação de sala de aula gera demandas como a de interpelar um aluno, pedir licença ao professor, conversar com o colega, discutir um texto, pedir explicações, definir um conceito.

 

Destinatário
A quem se destina o texto; é o enunciatário concretamente visado por um determinado discurso.

 

Discurso
1. De acordo com o célebre linguista francês Émile Benveniste, o discurso é “a linguagem posta em ação – e necessariamente entre parceiros”. Portanto, o discurso, como toda e qualquer ação humana, é um acontecimento, determinado por condições de produção específicas. Nesse sentido, o discurso se contrapõe à linguagem entendida como sistema abstrato de comunicação, composta por um dicionário (o conjunto de palavras da língua) e por uma gramática (o sistema de regras que define como se formam essas palavras, como se classificam e como podem ser combinadas numa frase). 2. Também se chama discurso a um uso efetivo qualquer da linguagem verbal: o discurso da Igreja, o discurso do governo, o discurso do sindicalista.

 

Efeito de sentido
No interior de um discurso, as palavras não têm um sentido único e fechado, como nas definições de dicionário, mesmo quando empregadas numa acepção claramente determinada. Dependendo de fatores como o fato de serem faladas ou escritas, proferidas por alguém identificado ou anônimo, numa esfera pública ou privada, num conto ou numa notícia, numa situação formal ou informal, com esta ou aquela intenção etc., as palavras desse discurso produzirão efeitos próprios. É um conjunto particular de condições de produção, portanto, que determina os efeitos de sentido de um discurso.

 

Enunciação (ato de)
Toda enunciação é um uso particular da língua. Assim como, no teatro, a encenação é o ato de produzir uma cena, a enunciação, nos domínios da linguagem, é o ato de produzir um enunciado,— oral ou escrito — com um conteúdo definido e um formato determinado pela situação de comunicação em que vai se dar.

 

Enunciado
O enunciado é o resultado “material” de uma enunciação. Assim, pode ser entendido como o texto, oral ou escrito, produzido por um ato de enunciação. Todo enunciado tem uma dupla face: a forma (sua estrutura) e o conteúdo (os sentidos associados a essa forma). Na teoria bakhtiniana do gênero, o enunciado é entendido como o produto concreto, histórica e socialmente situado, de uma interlocução. Nesse sentido, todo enunciado está marcado pelo diálogo em que se insere e por suas condições de produção.

 

Enunciador
É aquele locutor que assume concretamente um ato de enunciação.

 

Enunciatário
Num ato de enunciação, o enunciatário é o sujeito a quem o enunciador efetivamente se dirige. É, portanto, o interlocutor concretamente visado. Numa carta, por exemplo, o destinatário desempenha esse papel. No jornal, na revista, no livro, o enunciatário é o leitor. No discurso do professor em sala de aula, o aluno é que ocupa esse lugar.

 

Escolha (ou seleção) lexical
Para referir-se a algo, um discurso precisa designá-lo, ou seja, dar-lhe um nome. Por outro lado, para desenvolver comentários a respeito do que designou, todo discurso deve caracterizá-lo, atribuindo-lhe propriedades, inserindo-o num determinado contexto, relacionando-o a outros elementos etc. A seleção lexical é o processo por meio do qual o enunciador desse discurso escolhe as palavras mais adequadas para tanto, considerando as intenções e objetivos em tela. Na medida em que nenhuma designação é completamente neutra, designar um presidente da República pelo seu nome próprio, ou como “o presidente”, “o mandatário”, “o chefe da nação” etc. envolve também uma certa avaliação, o que colabora para estabelecer uma orientação argumentativa para o texto.

 

Escrita
1. Em oposição à oralidade, escrita é a modalidade gráfica de uma língua. 2. Do ponto de vista do discurso, escrita é o nome que se dá aos usos linguísticos próprios dessa modalidade (Cf. letramento). Nesse sentido, nem tudo que se fala se escreve. E tudo que se escreve produz efeitos de sentido diferentes daqueles que a fala desencadeia.

 

Esferas de atividade (humana)
As ações humanas se organizam em esferas de atividade socialmente definidas. Por isso dizemos que cada uma de nossas ações e cada um de nossos atos de interação tem possibilidades e limites socialmente definidos. Como a vida social está sempre em constante mudança, não é possível estabelecer quantas nem quais são, “em definitivo”, essas esferas. Além disso, as diferentes esferas se intersecionam, podendo se recobrir em parte. Mas podemos considerar que estamos diante de uma delas se conseguirmos identificar quais são os fatores sociais que a determinam. Nesse sentido, podemos distinguir diferentes esferas a partir de uma primeira distinção básica: o público e o privado (Cf. esferas públicas e esferas privadas).

 

Esferas privadas
Esferas privadas são aquelas que se estabelecem com base nas relações imediatas de um indivíduo. Determinam-se, portanto, pelas relações familiares, pelo círculo de amizades, pela vizinhança etc. Entretanto, graças às tecnologias da comunicação, as esferas privadas libertaram-se da proximidade física: tornou-se possível ter amigos e até namorado(a)s virtuais.

 

Esferas públicas
Uma esfera pública de atividades é aquela que, ultrapassando o âmbito das relações imediatas de uma pessoa, é partilhada por toda uma comunidade. É o caso da política institucionalizada, da educação, do trabalho, da saúde e da cultura, especialmente quando essas atividades estão relacionadas ao governo da sociedade. Por serem comuns a mais de uma pessoa, as esferas públicas compõem o espaço privilegiado para o exercício e a construção da cidadania.

 

Estilo
1. Estilo é o nome que se dá à adequação do discurso ao tipo de situação em que ele se dá. O estilo formal é usado em situações em que o nível de tensão é alto, e os participantes precisam dar mostras de dominar um padrão de polidez e elegância socialmente estabelecido. Já o estilo informal é o adequado para situações distensas, em que não há padrões de interação a serem rigidamente cumpridos. 2. Na teoria do gênero de Bakhtin, estilo é uma das três dimensões básicas de um enunciado ou de um gênero. Nessa concepção, estilo é o conjunto de aspectos discursivos, textuais e/ou linguísticos que dão individualidade a um enunciado ou gênero. Assim, haveria um estilo individual, determinado pelo enunciador (o estilo de um autor, por exemplo), e um estilo funcional, associado ao tom (formal/informal; subjetivo/objetivo; generalizante/particularizante; etc.) próprio de um gênero.

 

Forma composicional
É a organização geral do texto, ou o seu plano global, tal como assumida por um gênero. Numa resenha, por exemplo, a forma composicional envolve partes ou momentos do texto em que o autor: a) situa a obra resenhada; b) descreve-a nos aspectos mais pertinentes; c) analisa e/ou comenta esses mesmos aspectos; d) opina avaliativamente a respeito; e) conclui com uma avaliação final. Diz-se, então, que esse conjunto é a forma composicional da resenha.

 

Gêneros do discurso
Sempre relacionados a esferas de atividade, os gêneros do discurso são “modos de dizer” apropriados para certas atividades e/ou situações, na medida em que permitem responder adequadamente às demandas de comunicação correspondentes. Na teoria do gênero de Bakhtin, todo gênero a) envolve um tema — o tipo de fato para o qual ele se volta, como a vida íntima, num diário; b) assume uma forma composicional — a organização geral do texto, como introdução, desenvolvimento e conclusão, nas dissertações acadêmicas; c) define um estilo — o tom característico desse discurso, mais ou menos pessoal, mais ou menos formal etc.

 

Hipertexto
Nas mídias eletrônicas, o hipertexto é a unidade básica da construção e da reconstrução de sentidos. Ao contrário do texto impresso, o hipertexto não constrói seus sentidos num percurso linear ao cabo do qual os conteúdos se organizam num sistema — seu funcionamento típico é o da rede associativa, permanentemente aberta. Por isso mesmo, o hipertexto jamais se encerra nos limites de um único texto, caracterizando-se, antes de mais nada, por um conjunto de relações possíveis com outros textos, acessíveis um a partir dos outros. Além disso, o hipertexto é (ou pode ser) multimodal, ou seja, articula textos de linguagens diferentes: fala, escrita, desenho, foto, gráficos, som, música etc. Para ler um verbete da Wikipedia, por exemplo, é preciso fazer um trajeto pessoal entre escritos, imagens, gráficos etc., cada um deles remetendo a outros tantos textos.

 

Interdiscursividade
Nenhum discurso se dá em completo isolamento e autonomia. Dito de outra forma, nenhum discurso se basta, na medida em que se apóia em outros, como parte necessária de sua própria elaboração. Assim, quando dizemos/escrevemos algo, esse dizer se insere numa cadeia de discursos, como reposta, comentário, retomada, confronto, recriação, prenúncio etc. Interdiscursividade é o nome que se dá a essa condição inerente a todo e qualquer discurso. Em consequência, todo discurso comporta inúmeras referências — implícitas e explícitas — àqueles em que se mira. Cf. intertextualidade.

 

Interlocutor
Emprega-se este termo para designar, de forma geral e abstrata, aquele a quem o locutor fala, no momento em que este faz uso da palavra, oral ou escrita.

 

Intertextualidade
Em decorrência da interdiscursividade, todo texto se constitui por referência a outros, que lhe são ou anteriores (“Platão já dizia que…”), ou contemporâneos (“Diz-se por aí que…”), ou posteriores (“Eu sei que vocês vão dizer/ que é tudo mentira/ que não pode ser.”). Quanto mais marcada e recuperável for, num texto, a presença desses outros, maior será a sua intertextualidade. Cf. interdiscursividade.

 

Letramento
Em suas diferentes acepções, letramento é um termo técnico que remete às dimensões histórico-sociais da escrita. Por isso mesmo, o termo designa: 1. os diferentes usos e funções da escrita, numa cultura determinada, numa comunidade, ou num grupo. É nesse sentido que se fala de práticas de letramento, mas também de instâncias (ou lugares sociais), instrumentos e agências de letramento; 2. os efeitos desses usos e funções da escrita sobre o funcionamento e o modo de ser de uma cultura, comunidade, grupo ou mesmo indivíduo. É nesse sentido que se fala de culturas e/ou indivíduos com maior ou menor grau de letramento.

 

Léxico
Tradicionalmente, entende-se por léxico o conjunto de palavras de uma língua. Desse ponto de vista, o léxico se opõe ao vocabulário, que é o conjunto de palavras utilizadas por um indivíduo, uma obra ou um texto. Para alguns autores, o léxico é apenas uma lista de palavras, que o usuário seleciona de acordo com suas necessidades de comunicação. Entretanto, para outros autores, o léxico se organiza como uma rede de relações entre termos, de tal forma que, ao selecionar um deles, o usuário leva o ouvinte a resgatar essas relações.

 

Língua
sistema de signos linguísticos e suas regras de possíveis combinações, ambos definidos convencionalmente em uma comunidade falante. Pode-se dizer que a linguagem verbal, que é uma capacidade humana, realiza-se ou concretiza-se em sistemas linguísticos particulares, isto é, nas diferentes línguas que existem: o português, o francês, o chinês, o tupi etc.

 

Linguagem (verbal)
capacidade humana de interagir com outros semelhantes pelo uso de um tipo específico de símbolo, os signos linguísticos, como as palavras, por exemplo. A linguagem verbal apresenta duas modalidades: falada ou escrita.

 

Locutor
É o termo utilizado para referir o sujeito que fala (ou escreve), no momento em que faz uso da palavra.

 

Metalinguagem
1. Na teoria das funções da linguagem de Roman Jakobson, metalinguagem corresponde a uma dessas funções, aquela em que a língua é empregada para abordar a própria língua. As definições de vocábulos, num dicionário, ilustram bem essa função. 2. Numa acepção derivada da primeira, metalinguagem é a linguagem e/ou a terminologia técnica utilizadas na produção de conhecimentos linguísticos. Assim, termos como coesão, coerência e progressão temática, assim como morfologia, substantivo, verbo, sintaxe, oração, período etc., fazem parte de uma metalinguagem determinada.

 

Mídia
mídia eletrônica, site, rádio, vídeo. O neologismo mídia corresponde à grafia brasileira para a palavra latina media — meios —, tal como pronunciada em inglês, na expressão mass media. O termo se refere, portanto, ao conjunto dos meios de comunicação de massa, como a imprensa, o rádio, o cinema e a tevê. Com o advento da informatização, o conceito estendeu-se aos meios e ambientes digitais, como os sites e as redes sociais.

 

Mídia eletrônica
Inicialmente, a expressão referia-se apenas aos veículos eletrônicos de comunicação de massa, como o rádio e a tevê, com exclusão dos meios impressos. Atualmente, designa também os meios digitais. Nessa acepção, também se usa “mídia digital”.

 

Modalidade linguística
Se pensamos a língua como um sistema, a fala e a escrita são duas modalidades da língua, ou seja, dois modos possíveis de a língua se apresentar materialmente; Na escrita, no lugar dos sons próprios da fala, entram os sinais gráficos, representando ou os próprios sons (escrita alfabético-silábica) ou as palavras (escrita ideogramática).

 

Modalização
O termo modalização designa o processo por meio do qual um enunciador assume, em seus enunciados, atitudes como a dúvida, a certeza, a cautela, a reticência etc. em relação ao seu próprio discurso. Em todo texto há, portanto, um conjunto de recursos linguísticos, — como, entre outros, os modos verbais, os advérbios de modo e certas expressões avaliativas, — que indicam, para o enunciatário, em que condições ele deve entender o que o enunciado diz. Assim, a modalização é uma das muitas formas de o enunciador criar uma imagem de si mesmo em seu discurso.

 

Norma-padrão
Ao contrário das normas urbanas de prestígio, que são variantes linguísticas desenvolvidas e atestadas no interior de uma comunidade, a norma-padrão é um ideal de conduta linguística artificialmente construído, à semelhança das regras de etiqueta. Essencialmente conservadora, é baseada na escrita e inspirada em ideologias puristas, propondo-se como padrão linguístico em situações formais de esferas públicas.

 

Normas urbanas de prestígio
Essa expressão vem sendo utilizada para (re)definir, com mais rigor sociolinguístico, a noção de “norma culta”. Assim, a expressão normas urbanas de prestígio designa os falares urbanos que, numa determinada comunidade linguística, desfrutam de maior prestígio político, social e cultural, graças a sua vinculação histórica com a escrita, a tradição literária, o Estado, a Escola, as Igrejas e a Imprensa.

 

Objetivo do texto
É, basicamente, a finalidade com que ele é produzido, considerando-se seja o alvo final, seja uma etapa intermediária. Considerando-se uma determinada esfera, como a cultural, as atividades de produção de um filme, por exemplo, — criação do argumento, elaboração do roteiro, montagem da equipe, seleção do elenco, filmagem etc. — articulam-se entre si para garantir a consecução de uma meta final. Há, portanto, um objetivo comum a ser atingido pelo conjunto das atividades, ao lado de objetivos parciais para cada uma delas.

 

Organizadores textuais
Por meio desta expressão, designam-se as palavras e expressões que, num determinado texto, têm a função expressa de articular as partes que o constituem, estabelecendo entre elas relações de contraste, comparação, complementaridade, causa e consequência etc. Por isso mesmo, os organizadores textuais são ferramentas importantes para a elaboração de um plano global de texto.

 

Orientação argumentativa
A orientação argumentativa de um discurso é a direção que o enunciador, explícita ou implicitamente, procura levar o enunciatário a seguir, para que este aceite, sem maiores questionamentos, a conclusão final. Assim, num artigo de opinião que pretenda defender a proibição do fumo em locais públicos, um título como “Temos o direito de poluir o ar do próximo?” orienta o leitor para um rumo favorável à argumentação desenvolvida e, em especial, à conclusão de que, nessas condições, o fumo deve ser proibido.

 

Palavras avaliativas (expressões avaliativas ou apreciativas)
A rigor, nenhuma palavra ou expressão é neutra. Na medida em que todo uso da língua responde a demandas específicas de comunicação e expressão, a escolha lexical, num discurso, obedece a uma orientação argumentativa mais ou menos marcada pelo texto. Algumas palavras e expressões, entretanto, têm como função qualificar ou avaliar explicitamente aquilo de que se fala. É o caso, entre outros, de certos adjetivos e advérbios.

 

Papel social
Cada situação de comunicação de que participamos exige de nós o desempenho de um papel social próprio. Assim, um bom bate-papo só é possível para quem está desempenhando, entre outros, o papel de amigo, de familiar, de colega de trabalho ou de escola. Da mesma forma, ao dar conselhos, assumo, necessariamente, um papel como o de pai, professor, amigo devotado, pessoa mais experiente etc.

 

Perfil (web)
gênero de discurso que circula na esfera digital e que serve para realizar uma breve apresentação pessoal. O perfil traz informações gerais sobre seu autor (dados profissionais, lugar em que vive, faixa etária etc.) de modo a oferecer ao leitor uma rápida imagem do autor. Para criar um clima amistoso e agradável nas interações na web, o perfil costuma trazer também alguma informação ou modo de se expressar que individualiza o seu autor: informações mais pessoais ou brincadeiras que levem o leitor a perceber que se trata de uma pessoa mais séria, ou bem-humorada, ou romântica, ou idealista etc. Um bom perfil nunca é extenso; no máximo, em torno de 8 linhas. O que importa é que ele tenha uma marca pessoal.

 

Plano global do texto
Seja na perspectiva da leitura, seja na da produção escrita, o plano global de um texto corresponde a sua organização geral, a sua estrutura, determinada tanto pelo gênero quanto por outros fatores das condições de produção do discurso. Numa resenha, por exemplo, esse plano envolve partes ou momentos do texto em que o autor: a) situa a obra resenhada; b) descreve-a em seus aspectos mais pertinentes; c) analisa e/ou comenta esses mesmos aspectos; d) opina avaliativamente a respeito; e) conclui com uma avaliação final. Em Bakhtin, essa organização corresponde à forma composicional do gênero.

 

Produto cultural
Um produto cultural é o resultado identificável de uma atividade humana, distinguindo-se, portanto, dos produtos que a própria natureza nos oferece (alimentos e insumos, por exemplo). Como nossas atividades podem se exercer tanto sobre materiais concretos quanto sobre idéias, princípios e valores, temos produtos culturais materiais (cerâmica, cestaria, adornos pessoais) e imateriais (canções, peças de teatro, romances).

 

Progressão temática
O tema e/ou o assunto de um determinado texto pode ser entendido como a resposta que se dá à pergunta De que trata o texto X? Muito provavelmente, a resposta não estará em nenhum “pedaço” específico do texto, mas em sua totalidade. Portanto, para responder-se adequadamente a tal pergunta é preciso perceber como, da primeira à ultima palavra ou expressão, o texto elabora e reelabora seu tema ou assunto. É a esse processo de construção paulatina, em que os recursos de coesão são centrais, que se chama progressão temática.

 

Registro [de linguagem]
O mesmo que estilo (1).

 

Representação (da esfera de atividade, da situação de comunicação, do gênero)
As representações podem ser explicadas como “suposições” ou imagens mentais que cada sujeito tem que fazer para si mesmo, ao usar a linguagem, de cada um dos aspectos que compõem as condições de produção de um discurso e que nem sempre estão todos dados previamente. Assim, por exemplo, um locutor pode ter que representar mentalmente (ou imaginar) quem estará ouvindo uma palestra que está preparando, ou onde será distribuído um panfleto que produz, ou que objetivos deve visar ao escrever uma carta de reclamação, ou a que demandas de comunicação deve responder uma piada que conta etc.

 

Sequência didática
Sequências didáticas (SD) são sequências de atividades — de diferentes tipos e níveis de complexidade — que se articulam entre si e se organizam como oficinas. Centrada num gênero discursivo de interesse pedagógico, cada oficina visa objetivos parciais bem definidos: identificar um gênero como a crônica, com base em comparações entre textos diversos; (re)conhecer o plano geral do texto de um artigo de opinião; identificar as situações de comunicação próprias das memórias literárias; depreender os recursos linguístico-gramaticais mobilizados por narrativas ficcionais; etc. O objetivo comum a todas as oficinas que compõem uma SD é o desenvolvimento da proficiência, oral e/ou escrita, num certo gênero, assim como a reflexão sobre aspectos pertinentes da língua e da linguagem.

 

Sequências textuais
Designam-se como sequências textuais ou tipos de texto os padrões de trama por meio dos quais um texto pode ser tecido. De acordo com o linguista francês Jean-Michel Adam, as sequências totalizariam seis tipos diferentes de texto: narrativo, expositivo, argumentativo, descritivo, injuntivo e dialogal. Em cada um deles, haveria uma forma típica de construção da textualidade e, portanto, padrões próprios de coesão.

 

Signo (linguístico)
Diferentes autores definiram o signo lingüístico. Segundo Ferdinand de Saussure, o signo é a união arbitrária de um significante (imagem sonora) com um significado (conceito). A decisão de utilizar um determinado significante – por exemplo, a sequência sonora /meza/ – para um determinado significado – “móvel, comumente de madeira, sobre o qual se come, escreve, etc.” . – é resultado de uma convenção ou acordo social, a partir do qual todos utilizam um certo significante para se referir a um certo significado. As palavras de uma língua são signos lingüísticos; outros elementos, como os morfemas, por exemplo, também o são.

 

Situação de comunicação
É a situação em que a língua é usada. Sempre, dentro das esferas, temos situações específicas do uso da língua, como uma aula na esfera educacional, ou um programa de televisão na esfera cultural. Assim, para cada situação de comunicação, temos discursos próprios.

 

Sócio-história
É a história social de um gênero. Na medida em que um gênero se constitui para atender a demandas de comunicação e expressão geradas por situações típicas de uma determinada esfera de atividades, o processo de sua constituição — com base, por exemplo, em gêneros anteriores, como o e-mail em relação a cartas, bilhetes e recados — e a trajetória envolvida a) em seu reconhecimento, designação e difusão, no interior de uma sociedade; b) em seu “apogeu”, em sua eventual “decadência” e mesmo em sua “morte”, constituem sua sócio-história. Resgatar a sócio-história de um gênero é um passo importante na elaboração do modelo didático correspondente, na medida em que essa reconstrução permite estabelecer critérios por meio dos quais certas características do gênero são enfatizadas pelo modelo, enquanto outras podem ser até mesmo descartadas.

 

Subjetividade
Na definição de discurso, vimos que a perspectiva do uso e a presença efetiva de parceiros é decisiva para que um enunciado assuma um caráter discursivo. Podemos, então, dizer que os diferentes discursos podem diferir entre si pela relevância maior ou menor que esses sujeitos, o enunciador e o enunciatário, assumem no processo de (re)construção dos sentidos dos enunciados. Quanto mais esses sentidos estiverem associados a um ou outro desses protagonistas, maior será o teor de subjetividade do discurso. A título de exemplo, a compreensão de diários íntimos e cartas, — dois gêneros em que os sujeitos estão quase fisicamente presentes no texto, — está diretamente subordinada à capacidade do leitor em reconstruir, com base na forma como os enunciados se organizam, o universo do enunciador e/ou do enunciatário.

 

Suporte
designa o meio material em que um discurso se dá. A voz ao vivo, o impresso, os muros, os ambientes digitais são exemplos de suportes para, respectivamente, o bate-papo, a bula de remédio, a pixação e o e-mail.

 

Texto
Num ato de enunciação, o texto corresponde ao enunciado que se produz. Nesse sentido, um texto é o produto material — oral ou escrito — de um discurso. Portanto, todo texto é uma espécie de registro, tanto do ponto de vista das formas quanto dos sentidos, das escolhas que um enunciador fez, considerando o que pretendia dizer a um enunciatário, nesta ou naquela situação de comunicação.

 

Tipos de discurso
Há muitas concepções diferentes de tipos de discurso, na literatura especializada. Entretanto, considerando que discurso é a linguagem em uso entre parceiros, definiremos os tipos de discurso como ações linguísticas, passíveis de serem designadas por verbos de dizer. Assim, relatar, narrar, opinar, argumentar, expor, anunciar etc. são tipos de discurso. Entre outras coisas, os gêneros caracterizam-se pelos tipos de discurso que mobilizam.

 

Transposição didática
No âmbito da educação, esta expressão designa o conjunto de procedimentos e técnicas destinado a transformar um saber socialmente legitimado (um conceito, uma teoria, um procedimento etc.), originário de qualquer área do conhecimento, num objeto de ensino-aprendizagem possível, considerando-se o projeto didático-pedagógico em jogo e o perfil — social, psicológico, escolar etc. — do aprendiz. Assim, esse processo envolve uma estreita articulação entre a natureza do saber de referência, as demandas sociais de ensino-aprendizagem e as possibilidades e limites do aluno. As sequências didáticas podem ser encaradas como programas específicos para a transposição didática de um determinado saber, programas esses em que as “regras do jogo” e os passos necessários para a consecução dos objetivos estão previamente definidos e explicitados.

 

Variação linguística
Na medida em que as línguas são também fatos culturais, o léxico e a gramática de um idioma estão sujeitos a variações determinadas por fatores históricos, geográficos e sociais. Assim, toda e qualquer língua apresenta-se como um conglomerado de dialetos ou variantes, correspondentes às épocas, regiões e grupos sociais em que é falada. Ainda que certos dialetos constituam-se como normas urbanas de prestígio, nenhuma variante é, do ponto de linguístico, mais ou menos “correta”, “pura” ou “adequada” que as demais.

 

Variedade linguística
É o nome que se dá a qualquer manifestação de um idioma passível de ser caracterizada por um conjunto de traços próprios, — de natureza tanto lexical quanto gramatical — determinado por fatores históricos (variedade histórica), geográficos (variedade regional) ou sociais (variedade social). O mesmo que dialeto.

 

Voz(es)
Quando um sujeito enuncia um discurso, torna-se, necessariamente, o seu enunciador. Nessa condição, o sujeito dá uma voz a esse discurso, ou seja, dá a ele uma existência material, oral ou escrita. Outras vozes, no entanto, podem manifestar-se nesse mesmo discurso, além da voz de quem o profere. Na leitura em voz alta do texto de um terceiro, por exemplo, o enunciador faz ouvir não apenas a sua voz, mas a do autor. Por outro lado, nesse mesmo texto autoral, referências diretas e indiretas ao que outros já disseram, costumam dizer, provavelmente dirão etc., dão existência material a esses outros discursos. Assim, todo discurso é sustentado por mais de um enunciador, abrigando e ecoando, portanto, mais de uma voz.V
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