Semana 2 – Texto, textualidade, textualização – 18/08/2010 Fatores de textualidade

Universidade Federal de Minas Gerais

Faculdade de Letras

POSLIN

Curso de Especialização Ensino de Línguas Mediado por Computador

Disciplina: Teorias do Texto: do texto ao hipertexto

Professora: Carla Viana Coscarelli

 

Semana 2 –  Texto, textualidade, textualização – 18/08/2010

 

Fatores de textualidade

Leia as seqüências abaixo e responda: elas são textos? Procure argumentos para justificar e defender sua resposta.

 

Segunda – Francisca avança com o cavalo para cima do casal. Maurício impede que a mãe dê uma surra de chicote na irmã. Madalena implica por Nina estar envolvida com um português pobre. Beatriz confirma para Francisca que já não é mais virgem. Francisca decide mandar os filhos de volta para a Europa. Maurício insiste em conversar com Caterina, mas Gaetano interfere. Francisca avisa Vincenzo que vai tomar posse de sua parte na fazenda.

 

 

Trabalhar hoje pode ser bem produtivo. Aproveite para organizar as ações e cumprir os afazeres com energia e disposição renovadas. Compartilhe os apoios oferecidos.

na semana…
previsões para o trabalho
Dias importantes para a vida profissional. Uma oportunidade nova pode aparecer, mas ainda como especulação ou possibilidade futura. Há algo de muito bom nessa oportunidade. Não perca.

::: por Gregório Pereira de Queiroz

 

AUDI CABRIOLET 95
R$48. 700. Troco/ fin 4192-1712

GOL G III 4P 00
Verm. , dh R$16. 800. F:4192-1712

UNO EP 96 2PT
vermelho, ú. dono, nunca bateu, Estado de Novo. (11)5541-7236

 

Hai kai

a noite pinga uma 

estrela no meu olho

e passa

(Leminski)

 

tem cautela;

ajuda o sol

com uma vela

(Millôr Fernandes)

 

 

Cultura

 (Arnaldo Antunes)

O girino é o peixinho do sapo
O silêncio é o começo do papo
O bigode é a antena do gato
O cavalo é pasto de carrapato

O cabrito é o cordeiro da cabra
O pescoço é a barriga da cobra
O leitão é um porquinho mais novo
O galinha é um pouquinho do ovo

O desejo é o começo do corpo
Engordar é a tarefa do porco
A cegonha é a girafa do ganso
O cachorro é um lobo mais manso

O escuro é a metade da zebra
As raízes são as veias da seiva
O camelo é um cavalo sem sede
Tartaruga por dentro é parede

O potrinho é o bezerro da égua
A batalha é o começo da trégua
Papagaio é um dragão miniatura
Bactérias num meio é cultura

 

SAMBA DO APPROACH

(Zeca Baleiro)

Venha provar meu brunch

Saiba que eu tenho approach

Na hora do lunch

Eu ando de ferryboat

Na hora do lunch

Eu tenho savoir-faire

Meu temperamento é light

Minha casa é hi-tech

Toda hora rola um insight

Já fui fã do Jethro Tull

Hoje me amarro no Slash

Minha vida agora é cool

Meu passado é que foi trash

 

Fica ligada no link

Que eu vou confessar my love

Depois do décimo drink

Só um bom e velho engov

Eu tirei o meu green card

E fui pra Miami beach

Posso não ser pop star

Mas já sou um noveau riche

 

Eu tenho sex appeal

Saca só meu background

Veloz como Damon Hill

Tenaz como Fittipaldi

Não dispenso um happy end

Quero jogar no dream team

De dia macho man

E de noite drag queen

 

 

Aqui vão algumas reflexões minhas a respeito dos textos acima. Para mim são textos, e para você? Podemos discutir nossas diferenças no Fórum. Lembre-se de apresentar seus questionamentos lá.

Textos 1 a 6

 

Concordo com Halliday e Hasan (1976) que o texto “é uma unidade de língua em uso” (p. 1), no entanto, acredito que o restante da definição de texto dada por esses autores  – “é melhor compreendido como uma unidade semântica, uma unidade não de forma, mas de significado” (p. 2) – se refere ao processo de compreensão do texto e não ao texto propriamente dito. Um texto ainda não transformado em significado não deixa de ser texto. Um texto que não faz sentido para algumas pessoas, mas faz sentido para outras, não deixa de ser texto.

Por serem unidades lingüísticas que têm como propósito a comunicação entre falantes, podemos dizer que todas as ocorrências lingüísticas apresentadas acima são textos. Para isso, devemos recuperar alguns aspectos como o suporte e o portador em que circularam, recuperando assim seu contexto de produção o que vai facilitar a compreensão deles. Devemos considerar também o público a que eles se destinam e o propósito com que foram escritos, tendo como uma boa dica para isso a identificação do gênero textual a que pertencem.

Os sete princípios constitutivos da textualidade postulados por Beaugrande e Dressler (1981) — coesão, coerência, intencionalidade, aceitabilidade, situacionalidade, informatividade, intertextualidade  —  não são características do texto, mas condições para a sua produção e compreensão. Esses autores, ao proporem esses princípios não tinham a intenção de definir texto. O que interessava para eles naquele momento era compreender “como os textos funcionam na interação humana” (p. 4).

As meta-regras de Charroles: progressão, articulação, continuidade e não-contradição  – também dependem da percepção de quem está lendo o texto. Esse autor condiciona o funcionamento do texto à situação de interlocução. “Para ele, a coerência e o sentido do texto são dependentes da situação, o texto não é nem deixa de ser coerente em si mesmo, mas é coerente ou não para alguém em determinada situação.” (Costa Val, 1999). Sendo assim, um texto pode ter progressão para alguns leitores e ser considerado por outros leitores como sendo um texto que “não sai do lugar”, não diz nada de novo. A articulação de um texto, por sua vez, não precisa estar explicitada no texto por meio do uso de elementos lingüísticos, sendo papel do leitor inferir ou reconstruir as relações entre as partes do texto. E, da mesma forma que a articulação, a continuidade, ou seja, a retomada dos elementos do texto, pode não ser marcada pelo uso de pronomes, repetições, substituições, entre outros. A continuidade pode estar implícita (se é que isso existe), ou melhor, pode não estar sinalizada muito claramente no texto, devendo o leitor recuperar as referências. Em relação à não-contradição, também podemos dizer que o leitor é quem vai ou não perceber a presença de contradições. As contradições externas (entre o texto e o que o leitor sabe do mundo), por exemplo, podem não ser percebidas caso o leitor não conheça o fato ou idéia que ativa essa contradição. No caso de a contradição ser interna, ou seja, de elementos marcados no texto se contradizerem, cabe ao leitor perceber a oposição entre as idéias, mas diferentemente das externas, existe uma indicação no texto (mais ou menos direta) de que há uma contradição.

 

Para entender esses textos precisamos saber em que suporte e portador apareceram, reconhecer o gênero a que pertencem e, em alguns casos, saber quem é o autor e quais são as características dele pode ajudar na sua compreensão, restringindo algumas possibilidades de interpretação e sugerindo outras.

 

1)

Segunda – Francisca avança com o cavalo para cima do casal. Maurício impede que a mãe dê uma surra de chicote na irmã. Madalena implica por Nina estar envolvida com um português pobre. Beatriz confirma para Francisca que já não é mais virgem. Francisca decide mandar os filhos de volta para a Europa. Maurício insiste em conversar com Caterina, mas Gaetano interfere. Francisca avisa Vincenzo que vai tomar posse de sua parte na fazenda.

Resumo da novela Esperança (Rede Globo) – http://www.uol.com.br/jbaixada/resumo.htm

 

Para entender esse texto, é preciso identificar que ele é um resumo de novela. Essa identificação seria mais fácil se esse texto tivesse sido apresentado no seu lugar original, ou seja, na página ou site de um jornal, no caderno de TV ou link sobre programas de televisão, juntamente com resumos e outras informações sobre essa e outras novelas. Retirado do suporte original, essa pode ser uma tarefa muito fácil para aqueles que acompanham esse tipo de programa, mas pode dificultar a compreensão de quem não assiste a novela ou não se interessa por esse assunto (quem são essas pessoas? Qual a relação entre elas? Quem é o casal para cima de quem Francisca avança com o cavalo? Por que ela faz isso? Beatriz é filha de Francisca?)

À primeira vista, esse texto pode ser percebido como um conjunto de frases sem relação, no entanto, numa leitura mais atenta podemos ver que a maioria das frases é construída seguindo uma sintaxe básica ‘X faz (sempre no presente) Y’, que algumas personagens são mencionadas mais de uma vez (ex.: Francisca), que alguns elementos do mesmo campo semântico fazem parte do texto (ex. cavalo, fazenda; mãe, irmã, filhos), o que pode nos levar a começar a construir algumas relações entre essas partes e identificar o texto como sendo flashes de uma história.

As relações entre as frases não precisam ser explicitadas e mais dados não precisam ser mencionados uma vez que, para o público-alvo desse texto — que são pessoas que acompanham a novela — essas informações são suficientes para compreender o que aconteceu durante aquele episódio da novela.

 

2)

 

hoje…

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na semana…

previsões para o trabalho

Dias importantes para a vida profissional. Uma oportunidade nova pode aparecer, mas ainda como especulação ou possibilidade futura. Há algo de muito bom nessa oportunidade. Não perca.

::: por Gregório Pereira de Queiroz

Gregório Pereira de Queiroz http://www.estadao.com.br/ext/horoscopo/libra.htm (acessado em 26/10/2002)

Uma condição importante para compreender esse texto é identificá-lo como um horóscopo e, portanto, como um texto que traz conselhos, e que não tem a intenção de ser objetivo, direto e específico, muito pelo contrário, é característica desse texto ser ainda mais vago e impreciso do que normalmente os usos da linguagem são. É fácil identificar esse gênero no suporte original, uma vez que normalmente vem acompanhado do nome dos signos e de alguma imagem representando esse signo.

A recepção desse texto pode variar muito, dependendo da aceitabilidade do leitor em relação a esse gênero. Quem acredita nessas previsões vai ler para obter conselhos para o dia, ao contrário daqueles céticos em relação a esse tipo de informação, que podem pular essa parte do jornal ou da revista, ler para se divertir ou mesmo para debochar desse material.

A progressão desse texto pode ser questionada pelos céticos, mas para quem acredita em horóscopo, muita informação pode ser construída a partir dele.

3)     

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AUDI CABRIOLET 95 
R$48.700. Troco/fin.

4192-1712

 
   

GOL G III 4P 00
Verm., dh R$ 16.800.

F: 4192-1712

 
   

UNO EP 96 2PT
vermelho, ú.dono, nunca bateu, Estado de Novo.

(11)5541-7236

 

 

Anúncio de carros – http://www.classificados.estadao.com.br/ (acessado em 26/10/2002)

Considerando um conceito bem tradicional de texto — aquele que a gente aprende na escola: que texto tem de ter frase completa, começo meio e fim, não ter erros de gramática — poderíamos dizer que “isso” não é um texto. Mas considerando que são classificados de jornal e como tal devem ser escritos de forma sucinta para não ficarem caros e conter informações básicas como marca e ano do carro e telefone de contato, são textos. Por que não seriam?

A recepção desse texto pode variar dependendo do que o leitor procura ali e do quanto ele tem intimidade com esse gênero textual. A abreviatura “dh”, por exemplo, pode ser entendida como direção hidráulica, mas um leitor iniciante nesse tipo de texto pode inferir que é dinheiro, pagamento a vista. Mas ninguém vai dizer que os autores não sabem escrever porque não terminam as palavras, não sabem construir frases completas nem usar maiúsculas adequadamente.

Para compreender esse texto é preciso que o leitor perceba e reconstrua a relação entre os elementos que fazem parte dele. Ele precisa perceber que alguém está vendendo um Audi Cabriolet e que esse carro é do ano 95 e que o vendedor quer aproximadamente (uma vez que o leitor sabe que o preço de carros usados é sempre negociável) R$48.700,00 pelo Audi, que esse carro poderá ser trocado ou financiado e que o interessado pelo carro deve telefonar para 4192-1712 a fim de saber mais sobre o Audi e, se for o caso, fechar o negócio. Repetimos propositalmente a palavra carro e o nome do carro para que ficasse claro que todos os elementos do texto se relacionam ao carro anunciado e, conseqüentemente, à negociação desse bem.

Nos anúncios classificados de carros no jornal, normalmente o nome do carro é topicalizado e outras informações extras são escolhidas pelos anunciantes para seduzir o leitor (“Estado de Novo”) ou dar a ele mais detalhes sobre o carro (“Verm.”) ou sobre a negociação (“Troco/ fin”). Além do  nome do carro, não pode faltar no anúncio a forma de contato com o vendedor, que normalmente é um número de telefone.

Um leitor atento ou mais avisado vai perceber que o número do telefone de quem vende o Audi e o Gol é o mesmo e que, portanto, muito provavelmente, esses carros estão sendo vendidos por uma agência. Essa e muitas outras inferências podem ser feitas pelo leitor, construindo assim a coesão, a articulação, a continuidade, e o(s) sentido(s) desse texto. Quanto à progressão podemos dizer que esse texto traz em cada elemento informações novas, sendo informativo o suficiente para dar início ou não à negociação do carro.

 

4)   Hai-kai  

 

a noite pinga uma 

estrela no meu olho

e passa

Paulo Leminski[1])

 

tem cautela;

ajuda o sol

com uma vela

 ( Millôr Fernandes[2])

 

Saber que esses dois textos são Hai-kais, pode tornar menos árduo o trabalho do leitor, uma vez que vai procurar algum sentido filosófico para eles. Para compreendê-los o leitor precisa pelo menos identificar que são textos poéticos e que, por isso, exigem um trabalho de busca de sentidos nas entrelinhas (mais metafóricos, figurados ou indiretos). Os Hai-kais pedem que o leitor aposte na subjetividade, trazendo algum aspecto da sua vida para construir o sentido do texto, nesse caso, buscando construir com ele reflexões seja para a melhorar sua vida, resolver algum problema, tranqüilizar-se ou simplesmente pelo prazer estético e filosófico desses versos.

Saber quem são os autores desses Hai-kais também pode ser uma informação que vai orientar ainda mais a leitura deles. A informação de que o primeiro foi escrito por Paulo Leminski (poeta) e que o segundo tem a autoria de Millôr Fernandes (jornalista e humorista) pode convidar o leitor a ver mais poesia, beleza e estética no primeiro, e a sentir o toque de humor no outro.

Não faz sentido esperar desses textos mais dados, maior contextualização, mais explicitação das idéias, uma vez que, assim como o horóscopo, precisam ser vagos e para que o leitor consiga transformá-los num “exercício de zen[3]”.

Note-se que os hai-kais têm uma forma bem determinada. É um poema originário do Japão e consta originalmente de 17 sílabas em três versos: o primeiro de cinco, o segundo de sete e o terceiro de cinco.

De acordo com Paulo Leminski, para fazer um hai-kai

  • “ Escolha temas simples: natureza, primavera, verão, outono, inverno;
  • O primeiro verso expressa algo permanente, eterno
  • O segundo, introduz uma novidade, um fenômeno;
  • O terceiro e último, é a síntese.”

(http://www.terravista.pt/Meco/1911/haikai.htm acessado em 22/12/2002)

São normalmente, compostos por justaposição, isto é, estruturas verbais sem nexos sintáticos explícitos entre si são colocadas lado a lado de modo que o leitor tenha de descobrir a relação entre elas. No entanto, seguir essas instruções não garante que um texto possa ser considerado um bom hai-kai, como explica Franchetti (2002)

“Mas a especificidade do haikai não está apenas na justaposição, pura e simples. Essa é a forma, por assim dizer, externa da articulação do haikai. O que o define, pelo menos de meu ponto de vista, é a atitude que embasa a escolha e a apresentação dos termos justapostos. Essa atitude consiste na busca de uma percepção muito ampla ou intensa por meio de uma sensação. (…)

Parece muito claro que é do contraste entre a fugacidade da sensação e o seu ecoar nas diversas cordas da sensibilidade e da memória que nasce boa parte do que é mais característico na poesia de haikai. Na minha opinião, como leitor de haikai há vários anos, os melhores poemas desse gênero são aqueles em que uma sensação muito concreta — visual, tátil ou auditiva funciona como disparadora de associações, sentimentos e dados da memória. (…)

Na concretude do poema, a técnica de manipulação do kigo é vital para gerar a atitude de espírito que caracteriza o haikai: ele permite o reconhecimento, através de uma sensação objetiva, de um conjunto mais amplo em que essa sensação se encaixa e atua significativamente. E é esse o sabor mais característico da poesia de haikai.”

Franchetti, Paulo.    Haikai e sensação. http://www.unicamp.br/~franchet/lista.htm#sensacao acessado em 22/12/2002

A aceitação de um texto como um bom hai-kai vai variar como acontece com muitos outros textos literários. A qualidade de um texto, assim como outros aspectos como a progressão, articulação, continuidade, não-contradição, etc, vão depender do julgamento do leitor e não de uma característica do texto propriamente dito. Isso vale também para os próximos dois textos: Cultura e Samba do Approach.

 

5)

Cultura

Arnaldo Antunes
O girino é o peixinho do sapo
O silêncio é o começo do papo
O bigode é a antena do gato
O cavalo é pasto de carrapato

O cabrito é o cordeiro da cabra
O pescoço é a barriga da cobra
O leitão é um porquinho mais novo
O galinha é um pouquinho do ovo

O desejo é o começo do corpo
Engordar é a tarefa do porco
A cegonha é a girafa do ganso
O cachorro é um lobo mais manso

O escuro é a metade da zebra
As raízes são as veias da seiva
O camelo é um cavalo sem sede
Tartaruga por dentro é parede

O potrinho é o bezerro da égua
A batalha é o começo da trégua
Papagaio é um dragão miniatura
Bactérias num meio é cultura

Antunes, Arnaldo. Cultura. In: Nome. São Paulo, BMG Ariola Discos,1993.

Será que podemos dizer que temos aqui um conjunto de frases sem nexo? Embora não encontremos os elementos coesivos tradicionais explicitando as relações entre as frases (pronomes, conjunções, advérbios, etc.), espera-se que o leitor as recupere. Há, no entanto, nesse texto, muitas indicações do trabalho que o leitor deve fazer, ou seja, as escolhas lexicais e gramaticais feitas pelo autor apontam para um trabalho inferencial que deve ser feito. Entre essas indicações podemos citar:

– a estrutura da maioria das frases é:  X é/são Y de Z;

– o uso de artigos definidos;

– palavras do mesmo campo semântico – animais (seres vivos, natureza);

–  o mesmo tempo verbal em todos os versos – presente do indicativo;

– relações entre X, Y e Z ao mesmo tempo inesperadas e recuperáveis, (“lógicas”, possíveis, compreensíveis);

– o título e o último verso.

Podemos considerar uma boa compreensão desse texto aquela em que o leitor conseguir perceber essas indicações e for capaz de construir sentidos que justifiquem essas escolhas do autor, percebendo que o uso delas tem uma razão de ser, tem um propósito. Esse texto pode se tornar inaceitável caso o leitor não seja capaz de realizar esse trabalho, não passando nesse caso de frases desconectadas e absurdas.

O título e o último verso parecem dar a chave para a construção de um dos sentidos possíveis e prováveis desse texto: a constatação de que há sempre uma forma diferente de perceber o mundo e de que ser bom ou ruim depende do contexto. Nada é intrinsecamente bom ou ruim. As relações e os valores se estabelecem nas situações. O autor mostra que isso acontece inclusive com as palavras. O título, Cultura, pode acionar informações sobre valores artísticos de um povo, expectativa que já no primeiro verso é destruída e que vai sendo reconstruída ao longo do texto. Essa reconstrução encontra suporte, sobretudo, no último verso, que volta a nos convidar a retomar essa palavra em vários sentidos, incluindo esse das manifestações artísticas, uma vez que elas derivam da criatividade, de uma forma diferente de perceber o mundo, da subversão da ordem, pelo fato de que elas nem sempre são vistas como positivas, produtivas e enriquecedoras, etc.

Conhecer um pouco do percurso profissional desse autor também pode ajudar o leitor a buscar outros sentidos além dos sugeridos nas linhas do texto. Saber que Arnaldo Antunes é um autor engajado, que já em 1987, junto com os companheiros dos Titãs alertava para a necessidade da cultura (“A gente não quer só comida / A gente quer comida, diversão e arte”), pode incentivar o leitor a fazer uma leitura das entrelinhas, a perceber que por traz de uma aparente inocente brincadeira com os bichos há uma outra intenção, outros sentidos que precisam ser construídos.

O leitor saber da ironia e do tom debochado de Zeca Baleiro, autor do Samba do Approach, texto do qual passaremos a tratar agora, também pode ser de grande valia para a compreensão desse texto.

 

6)

SAMBA DO APPROACH

Zeca Baleiro (1999)

Venha provar meu brunch

Saiba que eu tenho approach

Na hora do lunch

Eu ando de ferryboat

Eu tenho savoir-faire

Meu temperamento é light

Minha casa é hi-tech

Toda hora rola um insight

Já fui fã do Jethro Tull

Hoje me amarro no Slash

Minha vida agora é cool

Meu passado é que foi trash

 

Fica ligada no link

Que eu vou confessar my love

Depois do décimo drink

Só um bom e velho engov

Eu tirei o meu green card

E fui pra Miami beach

Posso não ser pop star

Mas já sou um noveau riche

 

Eu tenho sex appeal

Saca só meu background

Veloz como Damon Hill

Tenaz como Fittipaldi

Não dispenso um happy end

Quero jogar no dream team

De dia macho man

E de noite drag queen

Baleiro, Zeca. Samba do approach. In: Vô Imbolá. MZA-PolyGram, 1999.

 

 

Nesse texto, encontramos mais elementos normalmente apontados como coesivos, que nos anúncios de carros e em ‘cultura’ como pronomes, conjunções, preposições e advérbios, mas isso não garante a construção de sentidos. Como nos demais textos analisados, as conexões ou articulações entre os elementos do texto precisam ser construídas pelo leitor, inferindo as relações entre eles e buscando recuperar as intenções das escolhas do autor.

O leitor precisa aceitar esse texto como portador de uma intenção comunicativa e entender as escolhas lingüísticas do autor como marcas dessa intenção. Não se espera que o leitor pense que o autor não sabe escrever português ou está contaminado pelos estrangeirismos e por isso usa expressões de outras línguas. Essa pode ser considerada uma leitura não adequada para esse texto. É preciso que o leitor recupere o contexto em que esse texto foi produzido e identifique a quem ele está tecendo críticas, percebendo assim também a sua continuidade. Ou seja, espera-se que o leitor perceba a crítica feita ao novo rico (“Mas já sou um noveau riche”), incluindo nessa crítica a necessidade desse emergente de usar palavras estrangeiras para demonstrar sua ‘erudição’, riqueza e poder.

Espera-se que o leitor perceba que “Samba do Approach” parodia a invasão de estrangeiros (principalmente norte-americanos) ao modo de vida brasileiro e também na língua, que já se pode notar no título. Alguns termos fazem alusão à malandragem, pelo estilo informal e ocorrência de gírias, como “me amarro”, “saca só”, “rola”.

A presença de imperativos (“venha”, “saiba”, “fique ligada”, “saca”) e as referências na primeira pessoa (“eu tenho”, “meu brunch”, “meu temperamento”, “minha casa”, “minha vida”, “meu passado”, entre outros) expressam a necessidade da personagem de se valorizar, de ‘contar vantagem’, de ocultar suas fraquezas exaltando suas qualidades e posses. O uso excessivo de estrangeirismos é uma forma de manifestar o exagero e o ridículo a que se expõem muitas vezes os novos ricos.

O encantamento com a modernidade e com o poder econômico, bem como a realização do desejo de conhecer e morar no exterior também são satirizados nesse texto com o uso de expressões como ir para “Miami beach”, tirar o “green card”, ter uma casa “hi-tech”, entre outros. A ironia e o tom hilariante do texto são reforçados pela declaração, no final do texto, da homossexualidade da personagem, revelando o seu deslumbramento.

As palavras em língua estrangeira com “brunch”, “light”, “ferry boat”, “cool”, “trash”,  ativam informações sobre o modo de vida da personagem revelando contradições que ainda fazem parte de sua vida de que tem dinheiro, mas ainda não tem “classe” ou requinte. A personagem toma “brunch[4]”o que parece ser chique, mas anda de ferry boat, o que revela seu lado ainda popular; a vida é “cool”, tranqüila, doce, mas já foi “trash”, um lixo. Esse texto mostra assim, que muitos outros ‘textos’, fazem parte e precisam ser ativados na construção dos sentidos desse texto[5].

 

Muito ainda poderia ser dito sobre esse e os demais textos, mas isso parece suficiente, para o intuito desse texto, que era mostrar que os sete princípios constitutivos da textualidade postulados por Beaugrande e Dressler (1981) — coesão, coerência, intencionalidade, aceitabilidade, situacionalidade, informatividade, intertextualidade — e as quatro meta-regras apresentadas por Charroles — progressão, articulação, continuidade e não-contradição – constituem fatores decisivos no processamento de qualquer texto e dependem da atuação do leitor do texto. A essa atuação dos leitores, buscando construir sentidos para o texto podemos chamar de textualização. “A coerência é um princípio de textualização” (Costa Val, 2004: 118). (Vamos discutir mais esse conceito no Fórum)

 

Bibliografía:

BEAUGRANDE, R.-A. de & DRESSLER, W. U. Introduction to Text Linguistics. London, Longman, 1981.

COSTA VAL, Maria da Graça. Repensando a textualidade. In: AZEVEDO, José Carlos (org.). Língua Portuguesa em Debate: conhecimento e ensino. Petrópolis: Vozes, 2001. p. 34-51.

Costa Val, Maria da Graça. Texto, textualidade e textualização. In: Ceccantini, J.L. Tápias; Pereira, Rony F.; Zanchetta Jr., Juvenal. Pedagogia Cidadã: cadernos de formação: Língua Portuguesa. v. 1. São Paulo: UNESP, Pró-Reitoria de Graduação, 2004. p. 113-128.

CHAROLLES, Michel. Introdução aos problemas da coerência dos textos. In: GALVES, C. et al. (org.) O texto: escrita e leitura. Campinas: Pontes, 1988.

Halliday, M.A.K. e Hasan, Ruqaiya. Cohesion in English. London, Longman, 1976.

 

 


[1] Leminski, Paulo. Caprichos e relaxos. São Paulo, Brasiliense, 1983.

[2] Fernandes, Millôr. Hai-Kais. São Paulo, Editora Senzala, 1968.

[3] “O haikai,  para muitos, é  um exercício de  zen.”

Franchetti, Paulo. Palpite sobre a questao do zen e do haikai http://www.unicamp.br/~franchet/lista.htm#zen

 

[4] brunch = breakfast + lunch.

[5] Segundo Beaugrande e Dressler (1981), apud Costa Val (1999)  “compreender e aceitar uma ocorrência lingüística como texto (…) envolve os conhecimentos, crenças e ações explícitos e implícitos no material verbal e a interpretação que o recebedor faz deles a partir de seus modelos prévios de mundo, de texto e de comunicação. Se se considerar que esses modelos prévios foram interiorizados pelo recebedor a partir de outros textos com os quais interagiu, então se compreenderá que o processamento de um texto é basicamente o trabalho de relacioná-lo com outros textos, ou seja, é uma questão de intertextualidade.

 

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