O que é texto? COMENTÁRIOS-CARLA COSCARELLI

 

Universidade Federal de Minas Gerais

Faculdade de Letras

POSLIN

Curso de Especialização Ensino de Línguas Mediado por Computador

Disciplina: Teorias do Texto: do texto ao hipertexto

Professora: Carla Viana Coscarelli

 

O que é texto?

 

Podemos abraçar um conceito amplo, lato, de texto. Neste caso, incluiremos como texto, produções nas mais diversas linguagens. Seriam tratadas como textos as produções feitas com as linguagens das artes plásticas, da música, da arquitetura, do cinema, do teatro, entre outras.

Nesse sentido podemos entender a “leitura do mundo” de que fala Paulo Freire. É preciso ler o mundo, compreender as diversas manifestações das muitas linguagens com as quais temos contato o tempo todo.

Esse conceito lato de texto, apesar de aceito por muitos teóricos e de ser interessante por se tratar de uma abordagem geral da compreensão (uma vez que essa depende da conjugação de várias linguagens) é adequado em algumas situações, e ineficiente em outros casos. Se consideramos um conceito amplo de letramento, queremos que os sujeitos sejam capazes de “ler” os mais diversos “textos” nas mais diversas linguagens. Aqui, vale a pena adotar a acepção de que “tudo é texto”.

No entanto, para se fazer um estudo da leitura e da escrita, por exemplo, é preciso delimitar um pouco esse conceito. Se tudo é texto, lemos o quê? Tudo? Estudaremos o quê? Tudo? O professor que vai alfabetizar tem de ensinar tudo?

O que é texto? Tudo? Então, caímos no nada.

Eu sou um texto? Uma janela é um texto? Um barulho é um texto? Ver então é ler? Ouvir é ler? Pensar é ler? Qual é o limite entre ler e pensar?

Se buscamos um objeto de estudo para fazermos ciência, a ampliação do conceito é extremamente perigosa e indesejada. Se tudo que vemos e ouvimos pode ser um texto, tudo pode ser texto, e o conceito se transforma em nada, pois é intratável, indefinível e, portanto, não nos serve. Para fazer ou tentar fazer ciência na área dos estudos lingüísticos e literários, que é o nosso caso, precisamos distinguir os conceitos de leitura, escrita e de texto. Lemos textos, escrevemos textos.

Para início de conversar, vou defender que textos são sempre verbais (dialógicos, hipertextuais também, mas vamos deixar essa conversa para depois). Na busca de uma definição para texto, acho melhor, pelo menos, por hora, e para esse exercício de conceituação do texto, ficarmos apenas no verbal, lembrando que elementos não-verbais podem e normalmente se associam ao verbal. Explico: não podemos lidar com um conceito que cai no vazio por ser amplo demais. Precisamos fazer um recorte e, para isso, opto por incluir no conceito de texto aquilo que se inclui também no ato de ler e de escrever que é o verbal.

Num conceito stricto, então, ler é ler textos verbais e escrever é produzir textos verbais.

Mas sabemos que há inúmeros textos que são compostos também por elementos não verbais. É difícil pensar, sobretudo quanto consideramos os ambientes digitais e midiáticos, em textos em que aspectos não-verbais não sejam parte importante de um texto. A cor e o tamanho da fonte são elementos precisam ser considerados, assim como a cor do fundo do texto, as ilustrações, as fotografias, as animações, entre outros elementos não-verbais que costumam fazer parte desses textos.

É preciso considerar que o texto normalmente vem acompanhado de elementos não-verbais que devem ser uma preocupação do autor e devem levados em conta no momento da leitura. Quem vai lidar com quadrinhos, por exemplo, precisa usar um conceito de texto que inclua a imagem. Quem vai lidar com música popular (não instrumental) precisa lidar também com a música e, nesse caso, deve incluir no seu objeto de estudo a música. O estudo de propagandas e de outros textos publicitários da TV, revistas e jornais, inclui necessariamente a análise de imagens. Podemos dizer, no entanto, que considerar o texto como sendo prioritariamente verbal não implica excluir desse conceito a presença de outras linguagens. Nesse sentido stricto, são textos aquelas produções que se utilizam da linguagem verbal associada ou não a outras linguagens. Produções em outras linguagens sem o verbal não devem ser, nessa abordagem, entendidos como textos.

 

 

Gêneros

Dada a dificuldade de lidar com um conceito que pode ser tão amplo, mesmo considerando uma concepção restrita desse termo, talvez o melhor (ou mais prático) seja lidar com a noção de gênero.

Os gêneros são (…) formas relativamente estáveis dos enunciados, determinados histórica e culturalmente. Isto é, toda vez que produz um texto com determinadas intenções comunicativas, o falante está se utilizando de um gênero do discurso, mesmo que não tenha consciência disso. Os gêneros do discurso são como que famílias de textos que possuem características comuns como, por exemplo: certas restrições de natureza temática, composicional e estilística. O fato de estar num determinado suporte (no outdoor ou no livro como no exemplo acima), ter uma dada extensão, um certo grau de formalidade/informalidade, faz com que um texto se diferencie de outro. Uma resenha escrita em um jornal, com o objetivo de divulgar um novo livro de literatura, será um gênero discursivo diferente de  uma resenha sobre o mesmo livro, escrita por um acadêmico como um trabalho a ser apresentado em um congresso de literatura. (Cafiero, Delaine, Alkimim, Heloísa, Machado, M. Zélia V., Guimarães, Vanir C. Proposta curricular de português – 2º ciclo do ensino fundamental. Belo Horizonte: SEE-MG, 1999. p. 6,7.)

 

A carta é um gênero textual, assim como também o é a bula de remédios, o bilhete, a carta, o cartaz, o horóscopo, a notícia, a conversa telefônica, o chat, a piada, entre muitos outros.

Cada um deles tem uma determinada estrutura, mais ou menos flexível dependendo do caso, mas na maioria das vezes reconhecível. Essa estrutura é um protótipo, um modelo, fruto da função desse texto[1]. Os gêneros costumam ter uma estrutura ou organização regular. Alguns são mais presos a essa estrutura (superestrutura) e outros aceitam maiores variações. Esse é um dos motivos porque não se pode considerar um texto como sendo apenas um conjunto de frases. Muitos aspectos diferem um texto de um aglomerado de frases, ter uma estrutura identificável, uma organização (lembrando que romper os padrões organizacionais é uma forma de marcar a presença dela pela sua ruptura), ter propósito, caráter sóciocomunicativo, etc. Como diz Ingedore Koch: “Um texto não é simplesmente uma seqüência de frases isoladas, mas uma unidade lingüística com propriedades estruturais específicas” (KOCH, 1989:11).

Mas é preciso ter cuidado, pois uma definição baseada na forma: ter começo, meio e fim, seguir uma seqüência cronológica ou lógica, ter frases completas e bem estruturadas, seguir determinada organização ou padrão, também não se aplica ao conceito de texto, apesar de, em alguns casos, poder ser um critério para se falar de gêneros textuais. Se para ser texto fosse preciso ter todas essas características formais, muitos dos textos que encontramos no nosso dia-a-dia não poderiam ser considerados textos.

O texto não seria, então, aquilo que os gêneros têm em comum? Sim. Mas o que eles têm em comum? A linguagem verbal? Ter função, propósito ou finalidade, ser dialógico e hipertextual talvez não seja característica definitória de texto, neste sentido mais restrito, uma vez que são características da linguagem. O que restaria para o texto, como nosso objeto de estudo é, portanto, ser verbal.

Uma definição de texto muito usada é dada por Beaugrande (1997). Para ele,  “o texto é um evento comunicativo em que convergem as ações lingüísticas, cognitivas e sociais, e não apenas a seqüência  de palavras que são faladas ou escritas”. Além de afirmar que o texto é forma física – ação lingüística - Beaugrande explicita variáveis que estão sempre relacionadas ao texto, uma vez que ele é produzido em algum uso social da língua, daí a idéia de gêneros, já há muito apontada por Bakhtin e retomada mais atualmente por Bazerman (2005), entre outros autores.

O leitor contribui para a textualidade e para construção dos sentidos para o texto numa dada situação, mas não para a constituição do texto como tal. Costuma haver, no entanto, em vários trabalhos, uma confusão entre texto (produto/físico) e leitura (processo/mental).  Uma coisa é o texto como resultado das escolhas do autor e outra é o que o leitor faz com essas escolhas quando da leitura (colocar essas duas coisas no mesmo pacote costuma dar uma confusão danada!)

É comum o sentido ser apontado como característica do texto:

 

“Texto é aquilo que faz sentido”

“é uma unidade de sentido”

“é qualquer coisa que a gente entende”

“é necessário que tenha interpretações variadas”

“é aquilo que cria sentido.”

 

“Texto é dotado de unidade de sentido”: Qual a noção de sentido aqui? Como essa frase está sendo entendida? Ter unidade de sentido é ter sentido? O sentido está no texto? Ter unidade de sentido é girar em torno de um tema principal (recuperável pelo leitor), e não, ser dotado de sentido intrínseco.

O que é sentido e “onde” ele está? Ele poderia “estar” em pelo menos 3 “lugares”: no autor, no texto ou no leitor.

O sentido está no texto? Se está, por que um mesmo texto é entendido de formas diferentes por diferentes leitores? Por que alguém entende um texto e outra pessoa pode não entender esse mesmo texto? Se o sentido estivesse lá, não seria de se esperar que todos ou entendessem ou não entendessem um determinado texto e, se entendessem, entendessem da mesma forma?

O sentido está na palavra? Está no texto?

Eu martelei o dedo, pregando um quadro.

Infere-se que foi com um martelo

Passei a noite martelando essa idéia na cabeça. / Passei a noite com essa idéia martelando na cabeça.

Infere-se que foi com um martelo?

Quando dizemos que o sentido está no texto, na verdade, queremos dizer que há elementos lingüísticos que sinalizam um caminho para o leitor. Isso é feito pelas escolhas lexicais e dos mecanismos gramaticais feitas pelo autor.

Por exemplo, quando dizemos

(a)             João é maconheiro

ou

(b)             João é usuário de drogas

estamos dizendo coisas diferentes. Em (a) João é marginalizado em (b)  João é vítima.

O mesmo acontece nas escolhas morfo-sintáticas feitas abaixo

(c)             Cigarro, eu não fumo.

Eu não fumo cigarro.

Eu não fumo.

Eu ainda não fumo.

(d)             Ela morreu.

Ela foi morta.

(e)             Uma boa mulher

Uma mulher boa.

Há também mecanismos lexicais e gramaticais de coesão utilizados pelo autor no momento da escrita do texto, como pronomes anafóricos e outras formas de retomada, artigos, elipse, concordância, correlação entre os tempos verbais, conjunções, preposições, advérbios de seqüência, etc.

Não vamos entrar na discussão sobre coesão e coerência, porque isso vai render mais um monte de páginas. Por hora, basta dizer que a coesão são mecanismos que ajudam o leitor a construir a coerência do texto. O que significa isso? Significa que o texto traz vários elementos lingüísticos que devem ser interrelacionados pelo leitor para construir a coerência ou significado(s) para aquele texto naquela determinada situação. Disso pode-se concluir que:

– a coerência não está no texto, mas é construída pelo leitor.

– não há texto sem coesão.

– a coesão tem pelo menos duas faces:

– instruções que aparecem no texto.

– a realização dessas instruções pelo leitor.

Ex.

Paulo é um menino levado. Aquele pestinha quase afogou o gato da minha vizinha.

Para compreender essa frase o leitor tem de realizar algumas operações de coesão indicadas no texto. Uma delas é ligar “Aquele pestinha” a “Paulo”, uma vez que esse é o antecedente provável. Outra é ligar “minha vizinha” como sendo a vizinha do narrador e não de Paulo. Essas operações é que são, no final das contas, a coesão.

Vocês estão vendo de onde vem a confusão texto e sentido? Há uma confusão entre texto (produto/físico) e leitura (processo/mental). Para muita gente texto só é texto quando faz sentido, no entanto, uma coisa é o objeto físico e outra coisa é o processamento mental. Como diz o Prof Milton do Nascimento: “texto é risco no papel e som no ar”. O sentido não está no texto, ele precisa ser construído pelo leitor.

O sentido está no autor, é definido por ele? É difícil e perigoso afirmar isso. O autor no momento da produção do texto tem um sentido e um propósito em mente e procura escolher os elementos lingüísticos que ele presume que vão ajudar o leitor a recuperar algo o mais próximo possível do sentido pretendido. Isso não garante que o leitor vá entender exatamente o que o autor pretendia. Melhor seria dizer que o sentido “estaria” no contexto na qual se insere, entre outras coisas o autor, ou seja, a imagem que o leitor faz dele naquele momento, para aquela leitura. Entendendo contexto como construção mental ativa da situação discursiva. Nesse caso, o trio seria texto, leitor e contexto.

O sentido está no leitor? Tudo indica que quem constrói o(s) sentido(s) para o texto no momento da leitura é o leitor, mas isso não significa que ele pode ler como bem quiser. Há, no texto, indicações que ele não pode ignorar. Acreditar que qualquer leitura vale porque devemos respeitar a interpretação feita pelo leitor é jogar por terra dois processos ao mesmo tempo: a leitura e a escrita. Se eu posso ler o que eu quero em qualquer texto, como autor, eu não preciso me preocupar com os elementos que vão compor meu texto, porque o leitor vai entender o que ele quer mesmo. Essa é uma visão extremamente perigosa.

Cito, para encerrar por hora esse tópico, um texto do Possenti (2001:30) desenvolve essa discussão com argumentos muito pertinentes:

Nesta direção, penso que se pode defender a idéia de que o árbitro definitivo da leitura é o texto, desde que o texto seja concebido discursivamente, isto é, seja tomado como submetido a todas as restrições históricas que normalmente o afetam, e que afetam, portanto, seu autor e seu(s) leitores(es), submetendo-os tanto às regras de circulação quanto às de interpretação.

 

Referências bibliográficas

Bakhtin, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

Bazerman, Charles. Gêneros textuais, tipificação e interação. São Paulo: Cortez, 2005.

Beaugrande, R. A. de e Dressler, W. U. Introduction to Text Linguistics. London, Longman, 1981.

Beaugrande, Robert de. New foundations for a science of text and discourse: cognition, communication and freedom of access to knowledge and society. Norwood, New Jersey: Ablex Publishing Corporation, 1997.

Cafiero, Delaine, Alkimim, Heloísa, Machado, M. Zélia V., Guimarães, Vanir C. Proposta curricular de português – 2º ciclo do ensino fundamental. Belo Horizonte: SEE-MG, 1999.

Koch, Ingedore G. Villaça. A Coesão Textual. São Paulo: Contexto, 1989

Possenti, Sírio. Sobre a leitura: o que diz a análise do discurso. In: Marinho, Marildes Org. Ler e navegar: espaços e percursos da leitura. Campinas: Mercado de Letras, 2001, p.19-30.

 

 

 


[1] Para mais discussões sobre a noção de gênero sugiro a leitura de Silva, Jane Quintiliano G. Um estudo sobre o gênero carta pessoal: das práticas comunicativas aos indícios de interatividade na escrita dos textos. Belo Horizonte: Faculdade de Letras, UFMG, 2002. Tese de doutorado. Sugiro também a leitura dos livros de Charles Bazerman.

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